
MITO DESVENDADO: Estudo da USP NÃO comprova que máscaras foram inúteis e perigosas durante a pandemia de Covid-19
2025-03-21
Autor: Gabriel
Circulam nas redes sociais publicações afirmando que um estudo da USP (Universidade de São Paulo) teria demonstrado que as máscaras faciais foram "inúteis e possivelmente perigosas" durante a pandemia de Covid-19. Contudo, essa interpretação é equivocada, de acordo com especialistas consultados.
André Bacchi, doutor em Ciências Fisiológicas e professor adjunto da Universidade Federal de Rondonópolis, explica que a pesquisa não tem a capacidade de avaliar a eficácia das máscaras para a proteção contra o vírus, nem de determinar questões de segurança. Ele destaca que o estudo, por ser de caráter exploratório, buscou associações de dados já existentes e, portanto, não pode confirmar relações causais.
"O estudo é de caráter exploratório. Ele investiga dados buscando associações a partir de critérios pré-estabelecidos, mas não confirma absolutamente nada", esclarece Bacchi.
Pisoteando nas fake news, as publicações enganosas contaram com aproximadamente 110 mil curtidas no Instagram, 1.200 compartilhamentos no Facebook e mais de 2.000 repostagens no X (ex-Twitter) até a tarde de quinta-feira (20).
O professor Leonardo Costa, doutor em epidemiologia pela Universidade de Sydney, destaca que a metodologia do estudo é observacional retrospectivo e se baseia em dados de 24 países europeus para avaliar o excesso de mortalidade. O estudo revela uma correlação entre o uso de máscaras e o aumento de mortes, mas não implica que o uso de máscaras tenha causado esse aumento. "Muitos fatores podem influenciar esse excesso de mortalidade, incluindo o medo das pessoas de buscar tratamento nos hospitais, o colapso de sistemas de saúde e outras doenças não relacionadas à Covid-19", explica Costa.
Bacchi acrescenta que o estudo ignora a variação do excesso de mortalidade ao longo do tempo, limitando as análises a um ponto específico, o final de 2021. Essa abordagem reduz a robustez das conclusões. Além disso, Beatriz Klimeck, pesquisadora em qualidade do ar na Universidade da Califórnia em San Diego, ressalta que, embora os autores levantem hipóteses sobre contaminações por bactérias e fungos na utilização de máscaras em ambientes quentes, reconhecem não haver dados que sustentem essas afirmações.
O problema central está na interpretação de dados, com gráficos que sugerem uma relação direta entre o uso de máscaras e o número de mortalidades. Segundo Costa, “associação não é sinônimo de causalidade”. Bacchi também critica essa abordagem, ressaltando que a análise não considera a ordem dos eventos, o que poderia conduzir a uma falsa impressão de causalidade inversa, onde o aumento de mortes induz o aumento no uso de máscaras.
É essencial ressaltar que a eficácia das máscaras depende do tipo de material e do uso correto. Muitas pessoas utilizaram máscaras improvisadas, que não oferecem proteção adequada, e práticas inadequadas diminuem ainda mais sua eficácia. Entretanto, isso não significa que as máscaras são ineficazes. Elas provaram ser extremamente eficazes em ambientes controlados, como hospitais e UTIs, onde o uso correto é garantido.
Portanto, ao contrário do que algumas postagens tentam transmitir, o uso de máscaras continua a ser uma ferramenta importante e eficaz no combate à Covid-19, especialmente em ambientes propícios à transmissão do vírus. Vamos ficar atentos e não alimentar desinformações!