
'Creme de branqueamento deixou cicatrizes em meus filhos': A triste realidade do uso de produtos para clarear a pele na África
2025-03-30
Autor: João
Uma mãe no norte da Nigéria vive um pesadelo, segurando seu filho de dois anos que exibe queimaduras e pele descolorida no rosto e nas pernas. Fátima, de 32 anos, usou produtos de clareamento de pele em seus seis filhos devido à pressão familiar e agora amarga um arrependimento profundo.
Ela comentou que sua filha mais velha esconde o rosto em público, envergonhada pelas cicatrizes. Uma de suas filhas, em particular, ficou com um tom de pele mais escuro que antes, com marcas claras ao redor dos olhos, enquanto outra possui cicatrizes esbranquiçadas nos lábios e joelhos. O pequeno ainda está com feridas, que não parecem cicatrizar rapidamente.
"Minha irmã teve filhos de pele clara e isso gerou um contraste doloroso, pois percebi que minha mãe favorecia os netos mais claros. Isso me machucou profundamente", desabafa Fátima, ressaltando que comprou os cremes em um supermercado local em Kano, sem qualquer orientação médica.
A prevalência do uso de produtos para clarear a pele
O uso do clareamento de pele é um fenômeno preocupante na Nigéria, onde 77% das mulheres utilizam esses produtos, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Em comparação, o índice é de 66% no Congo-Brazzaville, 50% no Senegal e 39% em Gana. Para muitas mulheres, a pele clara ainda está associada à beleza e status social, um estigma cultural profundamente enraizado.
Os cremes frequentemente contêm ingredientes perigosos como corticosteroides, hidroquinona e mercúrio, que podem levar a graves problemas de saúde, incluindo dermatites, acne e até mesmo danos renais. Em 2023, a Agência Nacional de Administração e Controle de Alimentos e Medicamentos da Nigéria declarou estado de emergência devido a esses produtos, que se tornaram amplamente disponíveis, mesmo para crianças.
A normalização do clareamento entre crianças
A prática de clarear a pele é tão comum que várias mulheres admitem ter clareado seus filhos desde o nascimento, numa tentativa de 'proteger' os pequenos de futuras discriminações. Zainab Bashir Yau, dona de um spa dermatológico em Abuja, afirma que cerca de 80% das mulheres que conhece utilizaram esses produtos nos filhos.
Um aspecto alarmante é que muitos dos produtos vendidos em mercados locais são feitos com substâncias controladas e até ilegais, como o ácido kójico e a glutationa, que podem causar reações adversas severas na pele. Em um mercado popular em Kano, pude presenciar a venda desses cremes, com vendedores que misturavam ingredientes na hora conforme a demanda dos clientes, mesmo quando se tratava de crianças.
As consequências do uso de cremes clareadores
Fátima, que agora enfrenta as consequências das suas escolhas, observa que suas filhas sofrem discriminação por causa das marcas em suas mãos, confundidas com sinais de uso de drogas. Essa estigmatização afetou suas vidas sociais, causando até o cancelamento de possíveis noivados.
Detentores de cremes perigosos em mãos descoloridas afirmaram que estavam comprando produtos para que seus filhos pudessem "brilhar" ou parecer "radiantes". Um vendedor admitiu usar ácido kójico em quantidades excessivas para aqueles que buscavam uma mudança drástica na cor da pele.
Desafios na regulamentação e conscientização
A situação é ainda mais alarmante devido à dificuldade das autoridades de controlar estes produtos. Muitos deles são vendidos sem rótulos, tornando quase impossível identificar sua composição nociva.
Fátima lamenta suas ações e deseja que outras mães aprendam com sua experiência: "Mesmo tendo parado de usar, os efeitos colaterais ainda estão aqui. Peço a outros pais que usem minha situação como um alerta". Com um futuro incerto para a saúde de seus filhos, ela está determinada a lutar contra este padrão destrutivo e a conscientizar outros sobre os perigos do uso desses produtos.