
"É uma catástrofe", alerta médico do Hospital de Clínicas sobre a crise da doença renal crônica
2025-03-24
Autor: Fernanda
O tratamento da doença renal crônica no Brasil está em uma situação alarmante. Este problema de saúde atinge diversas regiões do país, refletindo um crescimento no número de pacientes em unidades de hemodiálise e um aumento nos diagnósticos da doença. Essa condição ocorre quando os rins perdem gradualmente a capacidade de filtrar o sangue, levando ao acúmulo de toxinas e fluidos no organismo.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 10% da população global sofre de doença renal crônica, com maior risco entre hipertensos, diabéticos, idosos, obesos e pessoas de etnias não brancas, assim como aqueles com histórico familiar de doenças renais.
Dados do censo anual de diálise de 2024 da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) revelam que o número de pacientes em diálise no Brasil saltou de 34.366 em 2014 para 52.944 em 2024, um crescimento impressionante de 54%. Em 2023, a taxa de mortalidade anual de pacientes em diálise era de 16,2% e subiu para 16,5% em 2024.
Na Região Sul do país, onde há 158 unidades de diálise cadastradas, o número de pacientes também aumentou, passando de 653 no ano anterior para 708 em 2024, o que representa um crescimento de 8,4%.
Um evento importante ocorrerá nesta segunda-feira (24), promovido pelo Rotary Club de Porto Alegre, intitulado "A questão da doença renal crônica – a tempestade perfeita", que abordará a situação atual da doença. Médicos especialistas compartilharão suas preocupações com o público.
Fernando Saldanha Thomé, nefrologista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e professor da UFRGS, descreve o quadro como uma catástrofe. "Uma grande porcentagem desse público de 10% apresenta aumento de comorbidades, complicações e mortalidade, além de enfrentarem dificuldades para internação. Uma pequena parcela evolui para a perda definitiva da função renal, necessitando de terapia de substituição", diz ele.
Os altos custos dos tratamentos e a falta de acesso a cuidados preventivos são fatores que agravam a situação. "Hoje, estamos vendo muitos pacientes que não têm acesso à saúde e chegam a estágios terminais", lamenta Saldanha.
O desafio também se reflete na formação de novos nefrologistas, com uma queda na quantidade de profissionais interessados na área. O especialista alerta que, em duas décadas, a doença renal crônica pode se tornar a quinta causa de incapacidades e mortes no mundo.
Além disso, pacientes em hemodiálise estão ocupando as emergências hospitalares devido a complicações. Mariana Sesterhenn Vieira, coordenadora do serviço de cirurgia vascular do Hospital Conceição, destaca que muitos pacientes jovens, que já estão em tratamento, chegam às emergências por problemas relacionados aos cateteres utilizados.
A infraestrutura de saúde também enfrenta desafios financeiros, já que as clínicas de hemodiálise relatam dificuldade em manter operações devido a pagamentos defasados pelo SUS. "A situação se torna insustentável quando precisamos contratar especialistas para atender estas complicações", explica Mariana.
Na busca por soluções, é fundamental que todos os pacientes em hemodiálise sejam orientados a optar pela fístula arteriovenosa, que tem menos riscos de complicações em relação aos cateteres. A adaptação e o acesso a esse tipo de tratamento podem não apenas melhorar a qualidade de vida dos pacientes, mas também aliviar a pressão sobre o sistema de saúde e os hospitais.
Com o aumento do número de casos e a gravidade da condição, a conscientização e a prevenção se tornam essenciais para enfrentar essa crise silenciosa. O futuro depende de um sistema de saúde fortalecido e da educação da população sobre a importância da detecção precoce e do tratamento adequado da doença renal crônica.